Você tem mania de limpeza ou algo mais grave como o TOC?

Ter mania de limpeza é algo muito mais comum do que imaginamos. Caso não se identifique com o quadro, certamente você conhece alguém que o apresenta. E ele não será problema se estiver dentro dos limites da normalidade, incapaz de promover prejuízos ou sofrimento ao indivíduo. A preocupação existe quando se caracteriza como uma disfunção psiquiátrica, como o TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo).

Mas, antes de falar dessa patologia, vale refletir que a preocupação com a limpeza, mesmo quando considerada exagerada, pode ser apenas uma característica individual como outra qualquer – uma pessoa tem mania de limpeza como outras têm de colecionar objetos, de anotar tudo, de guardar papeis.

“A mania de limpeza é uma das mais recorrentes por duas razões: biológica e cultural. No primeiro caso, é uma condição necessária à sobrevivência: na história de seleção da espécie, foram escolhidos os que foram capazes de prover um mínimo estado de salubridade a si próprio e à sua prole. No segundo, a explicação é que vivemos em uma sociedade que valoriza excessivamente a assepsia”, analisa Denis Roberto Zamignani, doutor em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo (USP) e colaborador da Astoc (Associação Brasileira de Portadores de Síndrome de Tourette Tiques e Transtorno Obsessivo-Compulsivo).

O problema está no exagero

Para saber qual o limiar entre o saudável e o patógico, a palavra-chave é equilíbrio. “Tudo que é excessivo está fora da normalidade, embora a simples presença de obsessões e compulsões não seja suficiente para se fazer o diagnóstico de TOC. O diferencial entre um quadro considerado aceitável e outro não é a frequência e gravidade dos sintomas, que traduzem o grau de comprometimento do paciente nas áreas profissional, pessoal e de lazer”, considera Leonard F. Verea, médico psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina de Milão (Itália), especializado em Medicina Psicossomática e Hipnose Dinâmica.

Em outras palavras, nem todo pensamento repetitivo, preocupação ou ritual pode ser classificado como obsessivo-compulsivo. Denis Zamignani, que também é coordenador do curso de mestrado profissional em Análise do Comportamento Aplicada no Núcleo Paradigma, sugere utilizar três critérios para saber se o cenário é ou não grave: se a ‘mania’ ocupa um tempo considerável do dia; se implica em um comprometimento significativo da rotina, levando a dificuldades no trabalho e nas relações sociais; e se traz certo grau de aflição e angústia ao indivíduo ou aos que convivem com ele.

“Uma boa forma de verificar se algo que você faz pode ser relacionado ao TOC é perguntar o que aconteceria se não o realizasse. Caso a resposta for ‘tenho medo de que algo terrível aconteça’, ou ‘eu me sinto muito mal’, ou ‘simplesmente não consigo deixar de fazer ou de pensar’, vale procurar a opinião de um profissional.”

Estranhamento leva à vergonha

O TOC se caracteriza por dois tipos de manifestações: as obsessões, quando ideias ou imagens vêm à mente independentemente da vontade; e as compulsões, que são os rituais que o indivíduo se vê obrigado a executar para aliviar ou evitar as obsessões. “Se não executa o ato compulsivo, ele fica muito ansioso. Como reconhece que seus pensamentos e atitudes são sem sentido, procura disfarçar tais manifestações e reluta em buscar auxílio médico”, ressalta Verea, acrescentando que muitos portadores de TOC apresentam outras disfunções como fobia social, depressão, pânico e alcoolismo.

“Tais experiências são, em geral, acompanhadas de muita ansiedade e martírio. A natureza do pensamento obsessivo é quase sempre muito desagradável e sua repetição incessante leva o sujeito à beira da loucura. Sem falar que os ritos são, para quem os assiste, bastante estranhos, gerando vergonha”, completa Zamignani.

O pior é que muitos portadores sabem que suas preocupações estão apenas ‘na sua cabeça’ e, assim, têm consciência do quanto se comportam de maneira singular, salienta o psicólogo. Constrangidos, não conversam com ninguém sobre seus temores e, muitas vezes, sofrem com o TOC por anos a fio – ou mesmo a vida toda – sem buscar ajuda. “Entretanto, estamos falando de um distúrbio que pode ser tratado com bastante sucesso e, o quanto antes isso for feito, maior a chance de melhora.”

Jovens são alvo fácil do problema

O TOC acomete cerca de 2,5% da população mundial, sendo considerado o quarto diagnóstico psiquiátrico mais frequente. “Em geral, ocorre entre os jovens, no final da adolescência, sendo comum começar já na infância. Entre adultos, a incidência é levemente superior em mulheres”, informa Verea.

Em relação à personalidade, o psiquiatra diz que, em geral, afeta pessoas extremamente escrupulosas (que não querem provocar problemas), formais e distantes nos relacionamentos, frios afetivamente, às vezes arrogantes. “Costumam ser autoritários quando ocupam postos de liderança e temerosos e tímidos quando não estão nesta posição. Intimamente, são medrosos, embora não admitam. E, ainda, metódicos, perfeccionistas, indecisos e controladores.”

Para entender bem, em relação à mania de limpeza, a pessoa tem ideias repetidas (obsessão) de que suas mãos estão contaminadas por ter tocado em objetos ‘sujos’; aí, para se sentir melhor, lava as mesmas várias vezes (compulsão). “Pesquisas recentes mostram que o TOC é uma doença do cérebro na qual algumas áreas apresentam um funcionamento excessivo. Sabe-se, também, que o neurotransmissor serotonina está envolvido na formação dos sintomas. Acredita-se, ainda, que os predispostos para a moléstia reagem exageradamente ao estresse. Neste caso, respondem com pensamentos obsessivos, que por sua vez geram mais estresse, criando um circulo vicioso”, explica Leonard F. Verea.

Prejuízos na vida cotidiana

Importante: há diferentes graus e comprometimentos da doença. Nos graves, a pessoa pode ficar com a vida seriamente afetada. No caso específico da mania de limpeza, é possível que o paciente apresente feridas na pele devido ao excesso de assepsia, machucados na gengiva por escovar demais os dentes, lesões por esforço repetitivo (LER) porque passou tempo demais esfregando algum objeto ou móvel de casa.

Em relação às causas, Leonard Verea diz que não se sabe ainda os motivos reais do desenvolvimento do TOC, embora seja consenso que pode surgir depois de um acidente grave ou por estresse, por exemplo. “Alguém que tenha inclinação para o desenvolvimento de TOC, mas que cresceu em um ambiente que incentivou o enfrentamento e a superação de obstáculos, pode não manifestar nenhum problema desse tipo – ou, se o mesmo ocorrer, terá maior facilidade para superá-lo. Por outro lado, uma criança que sempre esteve cercada de superproteção aprenderá que o mundo é repleto de ameaças e que ela não é capaz de desenvolver estratégias eficazes de luta. Daí, se houver uma predisposição, há grande probabilidade de o distúrbio aparecer de forma intensa”, complementa Zamignani.

Ajuda é fundamental

Os tratamentos, hoje, envolvem remédio – antidepressivos – e psicoterapia.

“Nos últimos anos, muitas substâncias foram desenvolvidas pela farmacologia de maneira a diminuir o sofrimento do portador, com efeitos colaterais discretos. A terapia, por sua vez, se ocupa em traçar estratégias capazes de dar conta das várias manifestações envolvidas no transtorno.

Há a intenção de abranger o comportamento do paciente como um todo, e não apenas focalizar a intervenção sobre os sintomas obsessivo-compulsivos, para permitir sua reintegração nas atividades cotidianas”, considera o psicólogo Denis Roberto Zamignani.

Uma das terapias mais eficientes, ele assegura, é a Exposição com Prevenção de Respostas (EPR), que consiste em um planejamento cuidadoso para que, gradualmente, a pessoa enfrente os estímulos temidos sem realizar a compulsão. Leonard Verea, por sua vez, acredita no emprego da Hipnose Dinâmica, que leva a um estado profundo de concentração com diminuição da consciência periférica. “Em não mais do que três ou quatro minutos para a indução, o portador, cônscio durante toda a sessão, elimina seus mecanismos de defesa e encontra as respostas para seus problemas.”

Muitos se perguntam se o transtorno tem cura. Verea esclarece: “Não podemos dizer que há cura. É uma questão de tratamento e controle. Se a pessoa se controla, melhora. Caso contrário, não.”

Fonte: www.noticias.uol.com.br

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