Suicídio – a desesperança que mata

Não adianta fecharmos os olhos: a atual humanidade tem produzido um número crescente de suicídios ano após ano. Hoje, dia 10 de setembro, é um dia chave para falarmos mais sobre isso, pois é o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio.

Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), a cada 40 segundos uma pessoa se mata no mundo e essa triste realidade tem sido agravada de algumas décadas para cá. As taxas de suicídio aumentaram 60% nos últimos 45 anos, segundo a OMS. Quase um milhão de pessoas resolve acabar com a própria vida todos os anos – em um universo até 20 vezes superior de tentativas mal sucedidas. Em grande parte dos países desenvolvidos, a violência autoinfligida é a primeira causa de morte não natural. Outra mudança apontada pela OMS é a faixa etária de quem comete suicídio [1].

Historicamente mais comum entre os idosos, o ato vem crescendo entre pessoas de 15 a 44 anos. Um estudo de Bertolote e colaboradores, publicado em 2005 na Revista Brasileira de Psiquiatria, confirma essa tendência no Brasil e traz um dado surpreendente: um aumento de dez vezes na mortalidade por suicídio em jovens de 15 a 24 anos entre 1980 e 2000. Considerando apenas os homens da mesma faixa etária, esse índice aumentou 20 vezes [2].

Dados do Mapa da Violência, do Ministério da Saúde (Brasil), revelam que o suicídio entre crianças e pré-adolescentes existe e está crescendo. De 2002 a 2012 houve um crescimento de 40% da taxa de suicídio entre pessoas com idade entre 10 e 14 anos. Tal crescimento das taxas de suicídios entre pessoas tão jovens nos levam à necessidade de uma profunda reflexão: por que será que até mesmo entre crianças o desejo e a efetivação da decisão de abandonar a vida tem sido cada vez maior?

A atual humanidade – uma fábrica de suicídios?

Se até mesmo as crianças estão engrossando os números de pessoas que desejam deixar de existir, algo de muito errado está acontecendo com as nossas sociedades, as nossas maneiras de nos relacionarmos uns com os outros e os objetivos que elegemos como os mais importantes para as vidas de todos nós. Tomar a decisão de acabar com a própria vida relaciona-se com uma infinidade de questões, problemáticas, impotências e, claramente, desesperanças que acometem os indivíduos que optam pelo suicídio em algum momento das suas vidas. Em verdade, cada caso de autoextermínio da vida deveria ser analisado em particular e à luz da história de vida de cada indivíduo – porém, os estudiosos das Ciências Humanas e, em especial, das Ciências Sociais e da Psicologia, sabem que as crenças, as escolhas, os comportamentos e as atitudes dos seres humanos não são fenômenos isolados das condições e circunstâncias sociais, políticas e culturais nas quais os indivíduos vivem.

Os seres humanos – sujeitos biológicos, psicológicos, sociais, culturais e espirituais – não são ilhas que existem de forma autônoma e independente em relação uns aos outros. Além de nascermos uns dos outros, conforme toda gravidez pode atestar, e, além de necessitarmos uns dos outros para nos formarmos, conforme toda infância também pode atestar, toda a vida humana é permeada de condições, necessidades e soluções intrinsicamente relacionadas ao convívio social e ao desenvolvimento de relacionamentos interpessoais entre homens e mulheres em diferentes momentos e circunstâncias da vida.

Nesse sentido, falarmos em comportamento humano implica, necessariamente, em falarmos sobre o contexto em que ocorre cada comportamento humano – um contexto que, em última análise, sempre se relaciona com a trama/teia/rede social em que cada indivíduo se desloca e na qual cada indivíduo se encontra para realizar a sua existência.

Portanto, passar a querer ‘deixar de existir’ guarda íntima relação com as faltas de estímulos, incentivos e sentidos existenciais que deveriam alimentar o desejo de viver de cada ser humano. A trama, teia ou rede social que não alimenta os seus membros com estímulos para a vida, acaba por se tornar uma raiz que, além de não substanciar as suas partes integrantes, não oferece sustentação para que as mesmas permaneçam de pé na luta pela sobrevivência.

Se “nenhum homem é uma ilha” – como a nossa condição social atesta todos os dias –, a qualidade e o sentido dos relacionamentos humanos têm profunda influência sobre as escolhas e os comportamentos dos homens. Pode ser que não seja a única influência, afinal, também somos seres de composição orgânica e biológica recheados de condições químicas e fisiológicas com algum grau de influência sobre os nossos comportamentos. Porém, nos últimos milênios (ou séculos, para não nos afastarmos muito) as condições orgânicas, biológicas e fisiológicas dos homens não sofreram alterações que justifiquem a explosão nas taxas de suicídios entre os mesmos. Seria na Biologia ou na Medicina que encontraríamos as respostas capazes de explicar o porquê, nos últimos 45 anos, de o número de suicídios entre os homens ter aumentado em mais de 60%? Não, não seria.

Tomando isso por base, fica a questão: se a condição biológica dos homens, nas últimas décadas, não sofreu alterações capazes de explicar as mudanças de seus comportamentos, será que a explosão das taxas de suicídio nos últimos anos não seria mais bem explicada por questões relacionadas a mudanças nas formas como os homens têm vivido, interagido e encarado a vida?

Aumento no número de vidas sem sentido

                Tal questionamento nos possibilita a criação de uma imensa lista de novas questões:

  1. as sociedades humanas têm dado ênfase aos sentidos e objetivos de vida que reforçam e estimulam as pulsões de vida ou as pulsões de morte dos indivíduos?
  2. os indivíduos têm sido convidados, pelas sociedades e suas ideologias predominantes, a desenvolverem a plenitude de seus potenciais existenciais ou apenas a se encaixarem nas engrenagens de sistemas produtivos voltados para os mercados?
  3. os homens, independente das suas idades ou circunstâncias de vida, têm sido estimulados a desenvolverem suas sensibilidades e capacidades criativas ou a se encaixarem em padrões de vida e de comportamento que favorecem apenas a lógica da acumulação e da reprodução de riquezas materiais?
  4. os conhecimentos humanos desenvolvidos pelas ciências e relativos à saúde mental dos homens têm sido amplamente divulgados e colocados a favor da prevenção aos adoecimentos mentais e transtornos do comportamento por parte das pessoas?
  5. as relações sociais de produção desenvolvidas pelos homens, na atualidade, têm favorecido o diálogo, o respeito, a cooperação e o fortalecimento dos laços de solidariedade entre os mesmos?
  6. a infância tem sido respeitada pelas sociedades enquanto uma dimensão voltada para o brincar, o aprender, o se conhecer, o sonhar, o fantasiar e o se preparar para a futura vida adulta?
  7. as sociedades, na atualidade, têm conseguido favorecer o adequado desenvolvimento e amadurecimento dos potenciais afetivos, sexuais, cognitivos, intelectuais e relacionais dos homens?
  8. as sociedades têm aprofundado o adequado tratamento dos homens como seres biológicos, psicológicos, sociais, culturais e espirituais ou, cada vez mais, vêm os tratando apenas como coisas, ferramentas, forças produtivas e/ou mercadorias?
  9. as atuais relações humanas têm favorecido e potencializado a libertação do homem das suas próprias armadilhas e prisões mentais?
  10. as atuais sociedades humanas têm priorizado a prevenção subjetiva dos problemas relativos à saúde mental dos homens ou preferido remediá-los por meio de soluções pragmáticas, utilitaristas e objetivas?

Esta lista, com certeza, aponta na direção de várias problemáticas, questões e reflexões que se relacionam, direta e/ou indiretamente, com a triste realidade de que as nossas sociedades humanas têm desestimulado um número cada vez maior de homens a continuar vivendo.

As discussões sobre o crescimento das taxas de suicídios entre as pessoas não devem desprezar esses questionamentos e nem a condição psicossocial dos seres humanos, sob pena de cometermos o erro de desejar avaliar o comportamento das gotas de um oceano sem levarmos em consideração o movimento das ondas e das correntes marítimas nas quais elas se inserem e das quais (co)dependem.

Como dito anteriormente, nenhum homem é uma ilha – e, ilhá-lo, não raras vezes pode levá-lo a querer deixar de existir. Falemos mais sobre isso com a convicção de que, quando um homem desiste de continuar existindo, algo na sociedade a qual ele pertence também contribuiu para essa (infeliz) desistência.

1/2 – Revista Unesp Ciência Edição 13.

Leonardo Abrahão

Leonardo Abrahão

Psicólogo que acredita que, mudando a maneira como encaramos a vida, podemos mudar o mundo.

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