Fim das Olimpíadas – agora é ouro para o tédio?

Vou aproveitar o momento para explicar uma coisa fundamental para as vidas das pessoas. Acabaram as Olimpíadas, certo? Muitos de nós, desde a cerimônia de encerramento, estamos nos sentindo órfãos, tristes, até mesmo desmotivados a tocar o dia a dia.

Acontece que as Olimpíadas estavam preenchendo os nossos cotidianos com “sentidos” e “motivações” capazes de nos manter animados ao longo das horas. Toda hora tinha algo acontecendo! Agora, terminadas, voltamos ao ordinário das nossas vidas – o extraordinário acabou.

E isso está errado, pois, a vida, por si só, é extraordinária e motivante. A maneira como a levamos é que a torna entediante, desmotivante e até mesmo adoecedora. E qual é a maneira (errada) como estamos levando a vida?

Veja aí e me fala se está sendo assim ou não: voltados apenas para o trabalho, atropelados por problemas na família, correndo grande parte do tempo atrás de dinheiro, sentindo-nos realizados no “consumo” e esperando o fim do expediente, das aulas ou da semana “para sermos felizes”.

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E aí? Não tem sido assim? E, assim, não tem sido uma tristeza, um tédio, um peso? A ocorrência de um evento como as Olimpíadas, então, funcionou como um “recreio”, uma “pausa” na chateação prolongada que tem sido a vida de muitas pessoas. Mas, como sabemos, todo recreio tem fim – e, agora, chegou a hora de voltarmos à realidade do dia a dia sem sal e sem graça.

Mas será mesmo que as coisas precisam ser assim?

Não. As coisas não precisam ser assim. Os homens inventaram esse estilo de vida baseado na falta de sentido para as suas próprias existências, portanto, obviamente, também podem agir no sentido de resgatarem ou criarem sentidos saudáveis e interessantes para as suas vidas.

Basta quererem. Basta se esforçarem. Basta perceberem que estão morrendo de depressão, ansiedade e outros problemas mentais-emocionais para reunirem forças em busca de uma vida melhor. Mas como reunir forças quando as forças necessárias para isso já não se encontram dentro de nós? Assim, dá uma olhada:

1. percebendo que a vida não está legal e que ela pode ser mais do que apenas a espera pelo fim das aulas, o fim do expediente ou o fim da semana;

2. percebendo que uma vida reduzida apenas à produção no trabalho, a busca por lucros ou o atingimento de metas no mercado significa o empobrecimento dos sentidos de existência de uma pessoa – o que, mais cedo ou mais tarde, resultará em tristeza e caminho aberto para a depressão;

3. percebendo e acreditando que apenas nós mesmos podemos tomar a decisão de romper com o que nos adoece e nos rouba energias, disposições e vitalidades;

4. buscando ajuda em conversas ou desabafos com outras pessoas – mesmo que, inicialmente, com pessoas que não sejam profissionais da psicologia – para que o processo de reflexão sobre as suas condições de existência seja iniciado e, então, você sinta o gosto positivo de questionar essas condições;

5. procurando ajuda profissional para entender o que está acontecendo com os seus sentimentos, os seus pensamentos e as suas emoções – e, então, por meio do suporte oferecido por profissionais do psiquismo humano, você comece a criar condições subjetivas para promover transformações objetivas em sua vida;

Tem jeito sim

Sim – “buscar forças” para “se ter forças” na luta por uma mudança de vida não é fácil. É como tentar se retirar de um lamaçal de areia movediça puxando-se pelos próprios cabelos: sem um ponto de apoio, a tarefa fica impossível.

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Nesse sentido, em se tratando de questões sentimentais e emocionais, um indivíduo, inicialmente, pode recorrer a amigos, a parentes, a colegas de trabalho para iniciar o processo de reflexões sobre o sentido da vida, as condições de existência das pessoas e o que podemos fazer pelo o amanhã, por exemplo.

Nós, seres humanos, somos seres necessitados da atribuição de sentido à realidade e nada melhor do que uma conversa com as pessoas próximas a nós para ampliar as nossas percepções sobre os sentidos do existir. Sócrates, filósofo grego da antiguidade, fazia isso com todos ao seu redor. Esse já seria um excelente primeiro passo rumo à criação de condições para mudanças maiores em nossos pensamentos.

Em seguida, ou paralelamente à redescoberta do valor do diálogo reflexivo com as pessoas próximas a nós, pode vir a procura por um profissional do comportamento humano e pelas técnicas que lhe levarão ao autoconhecimento e ao planejamento dos grandes resgates, das novidades ou das descobertas que lhe devolverão o gosto pela vida.
Jeito tem – o que não podemos é ficar inertes frente ao esvaziamento da nossa disposição para sermos felizes.

Se, sozinhos, não conseguimos reagir, buscar a ajuda de amigos e de profissionais não é demérito nenhum – como dizia a sempre sensível Clarice Lispector, “o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesmo”.

Partindo para a ação

Que tal aproveitar a oportunidade da leitura desse texto e chamar a turma para um bate papo sobre as questões levantadas aqui? Pode ter certeza que as simples discussão sobre os 5 itens apresentados algumas linhas atrás pode fazer muita diferença na vida de uma pessoa que está sofrendo e que nunca havia encontrado uma oportunidade para falar a respeito.

Aliás, essa é a proposta da Campanha Janeiro Branco: fazer de todo mês de Janeiro um momento propício para que as pessoas reflitam, profundamente, sobre o histórico, a qualidade, o sentido e as perspectivas das suas vidas. Em Janeiro, as pessoas estão abertas a essas questões e podem ser incentivadas a planejarem um ano com novos valores, novas ações e novas conquistas relacionadas a uma existência com mais saúde emocional e mais felicidade.

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Porém, todos nós podemos fazer essas reflexões agora, aproveitando, inclusive, a percepção de que o fim das Olimpíadas deixou o nosso dia a dia com um sabor de vazio, de tédio ou desânimo. Essa sensação, por si só, é suficientemente intrigante e capaz de nos levar ao maior questionamento de todos: que vida é essa que estamos levando e que necessita, a cada 4 anos, de Olimpíadas, Copas do Mundo, Eleições e/ou outros grandes eventos para nos sentirmos motivados a…viver?

Tem algo acontecendo de muito errado na maneira como estamos encarando a vida, não tem? Estamos dependentes do extraordinário para suportarmos o ordinário – e essa é uma espécie de matemática existencial insustentável, como, por exemplo, é insustentável a necessidade que o dependente químico tem de doses cada vez maiores de substâncias entorpecentes para se sentir satisfeito. Viver não é – e não pode ser – isso. Concorda?
Aproveita que você leu até aqui, chama um colega para conversar e responda: o que é viver para vocês? O que é viver entre os grandes eventos que nos empolgam a cada 4 anos? Será que a vida vale a pena, apenas, de 4 em 4 anos?

Concentre-se, pare e pense. A resposta vale ouro e estamos, todos, torcendo por você(s)!

Leonardo Abrahão

Leonardo Abrahão

Psicólogo que acredita que, mudando a maneira como encaramos a vida, podemos mudar o mundo.

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