Como educar se educador e educando não se conhecem?

Sou professor há 350 anos (não se prendam a detalhes…), psicólogo há um pouco menos e hoje passei por uma experiência muito interessante. Dando aula no cursinho – pré-vestibular, se preferir -, puxei um assunto com os alunos antes de entrar em uma determinada matéria. A matéria: ‘fato social’ para Émile Durkheim; o assunto a título de introdução à matéria: “quem aqui deseja ser mãe, quem aqui não quer ser mãe de forma alguma e por quais motivos deseja ou não deseja ser mãe?”.

A primeira aluna que se manifestou disse que queria ser mãe porque a irmã tinha engravidado muito cedo, havia enfrentado dificuldades, porém, apesar das dificuldades, as experiências da gestação, do nascimento e da maternidade tinham sido muito significativas e gratificantes para todos da família e, em especial, para a própria aluna.

Imagem: Ricardo Morante

Ao ouvir a aluna que falava, fui percebendo que, como professor, eu nunca tinha a ouvido (e nem às outras que seguiram a sua fala). O psicólogo que há em mim foi ficando angustiado com aquela situação: como professor, eu nunca havia ouvido a voz da aluna que falava e, como professor, eu não sabia absolutamente nada sobre a sua vida, seus sentimentos, seus pensamentos, sua história de vida, suas formas de enxergar a vida, suas experiências, suas angústias, alegrias, facilidades ou dificuldades existenciais – mesmo sendo seu professor há mais de um ano (ou mais ainda, talvez).

Com certeza, quando a irmã dela estava passando pelas dificuldades da gravidez inesperada, aquela aluna que falava vinha assistir as minhas aulas carregando angústias, medos e outros sentimentos dentro do peito e do coração. Ela com angústias e eu ministrando aulas sobre quaisquer assuntos que não a ajudavam em nada em relação as suas angústias. E, quem sabe, em alguma vez em que as suas angústias lhe angustiaram com mais força e a obrigaram a baixar a cabeça na carteira de estudos – ou a fixar o olhar em algum ponto indefinido no tempo e no espaço -, talvez eu lhe julguei desatenta ou desinteressada em relação à aula, ignorando por completo sua subjetividade soterrada no interior de um envólucro-estereótipo-reducionista de só-aluna posicionada a minha frente. Que ela, e Deus, me perdoem.

Como eu fiquei angustiado. O psicólogo que existe em mim quis repreender o professor que também sou. Depois da primeira aluna, outras se manifestaram, falando sobre o porquê desejarem, ou não desejarem, serem mães…

Eu nunca as tinha ouvido – coisas de pré-vestibular. Saí dessas aulas com uma certeza que enriquecerá, para sempre, tanto a minha vida de professor quanto a minha vida de psicólogo: precisamos ouvir as pessoas e estimular as pessoas a falarem, principalmente quando nos propomos a orientá-las.

A fala cura, a audição ensina, o diálogo salva e a humanidade é linguagem, mais do que qualquer outra (aparente) coisa.

Como psicólogo, pergunto-me: como conviver e dividir espaços com seres humanos e não conhecê-los, saber de suas histórias e ainda querê-los (e nos querermos) saudáveis?

Leonardo Abrahão

Leonardo Abrahão

Leonardo Abrahão

Psicólogo que acredita que, mudando a maneira como encaramos a vida, podemos mudar o mundo.

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